Viver Ludicamente é Revolucionar a Vida (por Karine Faleiros)


“…a ludicidade é um estado de bem estar que é a exacerbação de nossa necessidade de viver, de subir e de perdurar ao longo do tempo. Atinge a zona superior do nosso ser e só pode ser comparada a impressão que tenho por uns instantes de participar de uma ordem superior cuja potência sobre humana nos ilumina.”

Freinet

Tratar de ludicidade no contexto da educação, é tratar de revolução e transformação cultural, é tratar de ludicidade na vida, de subjetividade e também do ato de brincar, seja na infância ou na vida adulta.

Como educadores, profissionais do desenvolvimento e da área social, almejamos uma transformação e trabalhamos em nosso cotidiano para que esta transformação aconteça, muitas vezes reproduzindo os padrões de funcionamento que gostaríamos de mudar externamente. Não chegaremos muito longe restritos à lógica, à racionalização, ao objetivismo, ao materialismo, ao consumismo e ao ciclo curto do capital.

A ludicidade como queremos tratar aqui, nos convida para uma mudança profunda, uma revolução em nossa atuação, postura pessoal e profissional e para uma vivência de transformação. O lúdico extrapola sua função de ferramenta pedagógica, que é útil, contribui, mas não garante a profundidade que a mudança requer.

O lúdico que queremos tratar se configura inicialmente como uma revolução interna e nas relações, o que é invisível, impalpável, imaterial e extremamente fundamental. O lúdico só é possível a partir do real envolvimento com a própria vida, com a natureza, com o universo, com as pessoas, com o processo social e educativo, a partir do exercício constante da sensibilidade, da conexão com os propósitos que impulsionam a nossa alma, da mudança afetiva, ou seja, o lúdico se configura como o rompimento de um modelo, paradigma ou padrão mental, e isso reflete em uma mudança social, ambiental, econômica, cultural e espiritual.

Em um processo educativo ou processo de desenvolvimento de um grupo ou organização, por exemplo, a ludicidade entendida também como o rompimento com um modelo, paradigma ou padrão mental pode se manifestar na renúncia do papel de transmissor de conteúdos do educador/facilitador para um facilitador de trocas e de construção coletiva de inspiração, saberes, valores e habilidades, com a valorização não somente do pensar, mas também do sentir e do agir, de forma mais integrada. A ludicidade se também manifesta na renúncia da centralização e do controle onipotente e onisciente e caminha na direção da valorização da inteligência coletiva, da espontaneidade, do trabalho a partir do que é significativo para o contexto e para os envolvidos, do desenvolvimento da capacidade de improvisar para atender o que o momento está pedindo. Se manifesta na renúncia a uma distância afetiva para um caminho que considera a emoção, o afeto, a confiança, a expressão, a criatividade e a autonomia como vitais e estruturantes para o próprio desenvolvimento, para o desenvolvimento do grupo e processo educativo saudável. Se manifesta na renúncia da postura passiva para uma postura de compromisso em conexão com propósitos de vida e de contribuição para o bem estar e felicidade e de propiciar que haja circulação de energia vital no processo de desenvolvimento.

O que a vida está nos convidando a fazer neste momento de mundo?

Momento de decadência de velhas estruturas sociais em que a liberdade de tempo, a expressão, a criação, a emoção, a potência de transformar e agir, a conexão com o contexto, a interação com a natureza, com a própria vida e com o outro estão sem força, vitalidade e vibração.

A vida nos convida a contribuir para trazer à tona novas formas de atuar e nos relacionar. Como educadores e profissionais do desenvolvimento estamos nesta empreitada de fazer o parto do novo. E torna-se importante compartilhar aqui que este novo está relacionado à plenitude, à presença, à conexão com a nossa fonte e nossos propósitos, à vivência de nossos talentos, à criatividade, à autonomia, dentre tantas outras virtudes.

A ludicidade é uma forma de viver que reverbera transformação. Quem nunca sentiu na vida adulta a sensação de entrega e inteireza que vivenciávamos quando estávamos brincando da infância? A nossa brincadeira na infância era a coisa mais séria, estruturante e prazerosa que poderíamos viver.

O brincar na vida adulta é reinventar o nosso cotidiano quebrando o ciclo que nos aprisiona na responsabilidade quase única de fazer dinheiro, servindo a uma máquina capitalista, e libertando o sonho para além do ter, libertando nosso dia a dia das síndromes, das depressões, das tristezas, das ansiedades, da desconexão, da apatia e nos conectando com o nosso verdadeiro potencial.

Por este motivo, o brincar na vida adulta é seríssimo assim como na vida das crianças, pois é justamente onde nos realizamos, onde encontramos a nossa fonte de satisfação, onde fazemos a integração dos nossos sentimentos, pensamentos e ações, onde nos conectamos com nós mesmos, com o universo, com a natureza e com o outro, onde rompemos o tempo e o espaço e podemos viver o nosso momento também como seres espirituais. Seres espirituais que podem acessar a sensação de unidade e que experimentam a inspiração, a criatividade e a expansão de consciência. É difícil a explicação destes processos, pois fazem parte do mundo invisível e subjetivo e percorrem um caminho não racional de preenchimento da alma.

Viver ludicamente ou brincar é abrir mão de um longo caminho de dedicação. Dedicamos uma vida inteira a não brincar, disciplinados a trabalhar à serviço submisso a outro alguém, coisa ou sistema. Pode ser dolorido este processo de nos voltar para nós, de encontro pessoal profundo e de enfrentamento da sociedade. Porque da forma como as coisas estão, ser feliz é enfrentar a sociedade, é estar fora de moda, é ser excluído.

Ao longo dos séculos o brincar passou a ser malvisto e desvalorizado, pois todo o sistema se estruturou para o que se considera mais valioso: a produção para o lucro de poucos, às custas do tempo de vida da maioria de nós, o que se configura como uma violência absurda à nossa alma, às nossas capacidades, ao nosso potencial.

As crianças não tem tempo para brincar e assim acabam por não desenvolver autonomia, repertório, liberdade e conexão de sua natureza com uma natureza maior. Com muitas atividades produtivas, aprendem a ser rentáveis. E nós adultos estamos aproveitando o nosso tempo escolhendo atividades rentáveis, para consumir mais em um contexto em que o consumo é uma quase exclusiva fonte de satisfação.

Portanto a ludicidade é perigosa e ameaçadora, porque a plenitude é perigosa, a criatividade é perigosa, o prazer é perigoso, a liberdade de expressão é perigosa, pois revelam a vida, e a vida está fora do ciclo vicioso do consumismo, a vida está fora do shopping, a vida está em sentir-se mais potente agir na transformação de nossas vidas. É reinventar uma cultura e isso é desestabilizador.

 

Referência de inspiração: Filme Tarja Branca, Livro Artistas do Invisível de Alan Kaplan, Oficinas da Iandé, Conversas com amigos, Poesias de Manoel de Barros, a Vida, dentre outros…

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